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segunda-feira, 4 de setembro de 2017

O mapa conceitual e modelo de negócios do setor energético

Se alguém me pergunta entendeu ou quer que eu desenhe, sempre vou responder para desenhar. Meu método de aprendizagem é visual e prático. Eu preciso ver a coisa e preciso colocar a mão na massa para entender como funciona. E aí que há uns tempos passei a utilizar o mapa conceitual ou mind mapping, como uma galera descolada chama. O mapa conceitual é uma técnica gráfica que nos ajuda a organizar pensamentos, conceitos e ideias por meio de uma rede de proposições de forma a apresentar mais claramente a exposição do conhecimento.

E aí que agora tudo eu transformo em mapas.

Planejamento estratégico? Mapa conceitual. Dissertação de mestrado? Mapa conceitual. Modelagem de negócios? Mapa conceitual. Contar uma história? Mapa conceitual. O programa que eu uso é o CMapTools. Ele é gratuito e bem fácil e intuitivo de usar, mas vocês podem utilizar outros softwares gratuitos também. Inclusive, sempre quando palestro sobre empreendedorismo, sustentabilidade e inovação, mostro para as pessoas como elas podem identificar oportunidades de negócio a partir da criação de mapas conceituais de temas que elas gostem ou por meio de assuntos da moda.

Julianna, por que você está falando de mapas conceituais?

Porque recentemente fiz alguns mapas conceituais relacionados à inovação e sustentabilidade e acho que seria legal mostrar. Se eles são legais e não são confidenciais, por que cargas d’águas eu iria deixá-los confinados em meu computador? Aliás, curto demais esse modelo de compartilhamento de conhecimento. A quem interessar possa, tem alguns papers que escrevi e palestras que dei alguns anos atrás que disponibilizei no meu SlideShare. Eles podem der acessados aqui.

Então, voltando aos mapas conceituais, no último post, mencionei brevemente o que será a minha dissertação, que é sobre a transição do modelo de negócios do setor de petróleo e gás a partir de questões relacionadas à mudança na matriz energética e mudanças climáticas. E aí que fiz um mapa bem legal (modéstia à parte) sobre ela para uma disciplina de mestrado.

Antes de mostrar o mapa, peço que considerem que esse foi o primeiro que fiz. Juro que dei uma melhorada no uso da ferramenta. Os mapas que fiz depois deste estão bem mais bonitos e complexos. Ah, outra coisa, quando fiz esse mapa conceitual, o maluco do Donald Trump ainda não tinha retirado os EUA do Acordo de Paris.

Ei-lo:

Clique na imagem para vê-la maior
Conseguiram entender sobre o que é minha pesquisa e sobre o que vou passar dois anos escrevendo? E como construí esse mapa conceitual? Eu tinha uma questão principal, que era o novo modelo de negócios do setor energético. A partir de então, estabeleci um conjunto de palavras-chaves que serviram de ancoragem à questão focal e busquei uma relação entre elas, através de frases de ligação.

Na medida em que ia construindo as relações, inseri no mapa conceitual arquivos que suportavam a ligação entre a questão principal e as palavras chaves. Pode ser de qualquer tipo: pdf, vídeo, imagem, doc. A dica que eu dou é não colocar link de sites porque pode acontecer de daqui a um ano o link não funcionar mais e você perderá o conteúdo.


Depois disso, violà, mapa pronto. Simples assim! Aliás, vocês perceberam que eu escrevi muito mais sobre o que é o mapa conceitual do que sobre o mapa que eu fiz? Porque é isso mesmo. Para que explicar se pode desenhar? 

terça-feira, 14 de março de 2017

O sharewashing e a insustentabilidade das novas economias

Há um tempo ouvi uma palavra bem interessante: sharewashing. Maquiagem/lavagem compartilhada, pensei. Mas que raios seria isso? Como entusiasta da economia compartilhada, como entusiasta de novas economias, como entusiasta de modelos inovadores, como entusiasta da integração da sustentabilidade com tudo isso, fui pesquisar.

Pois bem, segundo minha busca pelo conhecimento, achei bons argumentos para se usar o tal do sharewashing. De cara, entendidos do assunto começam dizendo que empresas como AirBnB e Uber, ao contrário do que pensamos, não fazem parte da economia compartilhada. Um artigo de 2015 do HBR, inclusive, deu uma excelente explicação para isso: quando o compartilhamento é mediado pelo mercado e quando os envolvidos não se conhecem, isso deixa de ser compartilhamento para ser um simples serviço.

Para especialistas, há uma grande diferença entre comercializar e compartilhar. Por exemplo: um grupo de amigos que vai viajar e aluga um carro, um casa e divide as despesas. Isso é compartilhamento. Se você usa um serviço tecnológico de caronas e os usuários rateiam a despesa daquele deslocamento, isso é compartilhamento. Se você chama um motorista para te levar a um local e o objetivo dele com a prestação de serviço é o lucro, isso não é compartilhamento, mas uma mera atividade comercial. Ainda que esteja usando o seu carro particular para a atividade.

Ao contrário do real sentido da economia compartilhada, as empresas por trás de sharewashing atuam em um modelo baseado na economia do século passado. No entanto, elas utilizam ferramentas tecnológicas para ampliar o seu alcance. A diferença está aí, no uso da tecnologia para ampliar o seu alcance, não no modelo de negócios.

Somado a isso, há um monte de empresas querendo abocanhar uma fatia desse bolo que, segundo a McKinsey, vai chegar a 335 bilhões de dólares em 2025. O que está acontecendo é que empresas e marcas até então tradicionais estão se travestindo de descoladas, cool e mudando para a, então, economia compartilhada. Acontece que além dessa imagem bacana de inovação e modernidade, a verdade é que o que está por trás de tudo isso é a precarização do trabalho. Sem contar o desrespeito às leis e regulamentações governamentais.

No caso específico do AirBnB, li um artigo um dia desses, sobre a pressão de gentrificação que ele está fazendo nas áreas turísticas das principais cidades do mundo. Explico: se você tem uma quitinete em Copacabana e pode, sem o menor esforço, coloca-la para alugar no AirBnB e conseguir diárias de 150 reais (que está barato), para que você vai alugar para um mensalista e conseguir, no máximo, 1500 reais por mês? Do outro lado, se você é um morador da região mas não tem um imóvel próprio, ou você vai pagar uma fortuna de aluguel, ou vai ser relegado às zonas cada vez mais periféricas da cidade.

Isso é sustentabilidade? É esse o modelo de empresas do século XXI que queremos? Aproveito e também faço a mesma pergunta que a primeira pessoa a cunhar a expressão sharewashing fez: o sharewashing é o novo greenwashing?


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segunda-feira, 31 de outubro de 2016

A sustentabilidade corporativa em suas várias perspectivas

Assim como tudo na vida, as pessoas tendem a buscar um rótulo para a sustentabilidade. Porque é meio ambiente, é responsabilidade social, é viés econômico, é triple bottom line, são projetos, são processos, é planejamento, é sei lá mais o que. A bem da verdade é que sustentabilidade pode ser tudo isso, pode ser qualquer coisa, a partir de qualquer perspectiva. Sério.

Vou exemplificar a partir da minha experiência com a sustentabilidade.

Eu, Julianna, tenho fases dentro da sustentabilidade. Na verdade não deixo nenhuma para trás, vou evoluindo dentro do tema e acumulando conhecimento e visões.

Fase 1: Responsabilidade socioambiental. Quando comecei na área de RSE, por exemplo, de cara vi que ficaria pouco tempo lá, pois sentia profundo incômodo de trabalhar em projetos reativos, voltados para compensação e reputação. Vale ressaltar que é uma atuação importante, é necessária, faz parte de requisitos legais, mas não é para mim. Próxima fase.

Fase 2: Sustentabilidade. Quando comecei a trabalhar sustentabilidade de verdade, minha função era atrelá-la aos processos de negócio/produção da empresa. Não tem como falar de sustentabilidade apenas porque se tem o setor formalizado dentro da empresa. Ou ela está dentro das áreas ou ela é história de ficção. Gostei dessa pegada. Gosto ainda, mas apenas acho que já passou do meu momento. Próxima fase.

Fase 3: Planejamento estratégico sustentável. A-N-I-M-A-L. Considerar a sustentabilidade dentro do planejamento, visualizá-la de forma integrada às áreas, visão sistêmica da empresa, indicadores de performance, metas. Amo. Sempre amarei. Mas ainda assim meu tempo passou, mesmo que seja pouquíssimo praticado pelas empresas e ainda que exista um vasto campo de atuação. Próxima fase.

Fase 4: Economia da sustentabilidade. Olhar a perspectiva da sustentabilidade não só por aspectos financeiros, mas por cenários macroeconômicos, tendências, políticas globais, visões de longuíssimo prazo, lidar com a incerteza das grandes questões mundiais como mudanças climáticas e escassez de recursos, analisar como tudo isso impacta o modelo de negócios das empresas... meu xodozinho. É aqui que quero fincar minhas raízes. No entanto, pelo escopo das empresas, essa visão hoje não é muito discutida.

Não estou falando de Academia, governo, nem organismos mundiais tipo PNUMA ou IPCC. Nesses órgãos a economia da sustentabilidade é algo relativamente bem resolvido. Já tem muita pesquisa, muitos estudos, muitos artigos sobre o custo das mudanças climáticas, da adaptação, da mitigação da perda da biodiversidade etc etc etc.

Meu ponto é: O que isso significa para uma empresa ou um setor por inteiro? O que, por exemplo, significa para a indústria de petróleo e gás ou a indústria automotiva, a resolução alemã de proibir a circulação de carros movidos à gasolina ou diesel a partir de 2030? Como esse nível de sustentabilidade é absurdamente incipiente nas empresas, voltemos uma casa. Daqui a uns 10 anos, quem sabe, a gente avança de novo. Ou menos, eu espero.

Fase 3,5: Inovação para a sustentabilidade. Esta é uma perspectiva que não é nova, mas a verdade é que as empresas nunca deram o devido valor. Para ela existir, no planejamento estratégico de uma organização deve ficar clara a orientação para inovação. E no caso, a visão da inovação para sustentabilidade deve ser muito mais do que um produto como resultado final. Ninguém hoje vai (ou deveria) gastar tempo e dinheiro na pesquisa e no desenvolvimento de um produto de alta emissão de carbono, ou de grande impacto ambiental, por exemplo. Entenderam, empresas de petróleo e gás?

A questão é que praticar efetivamente a inovação para sustentabilidade é ir além de produto sustentável. Significa a integração das novas economias (economia circular, economia compartilhada, economia criativa) ao processo produtivo e/ou ao planejamento estratégico. Significa inovar a partir da mudança que as novas economias vem gerando no mercado, na sociedade e na forma como as pessoas  consomem. Afinal, onde está, por exemplo, a maior inovação para a sustentabilidade: no carro elétrico ou no carro compartilhado?


segunda-feira, 1 de agosto de 2016

Sustentabilidade, economia compartilhada e o setor público

Quando falamos de economia compartilhada, pensamos de cara em empresas como Uber, Airbnb e similares. Pensamos também na possibilidade de qualquer pessoa ganhar um dinheiro extra, descentralizando o processo produtivo, seja alugando um quarto vazio em casa, seja fazendo um bico no volante num sábado à noite que ninguém o chamou para sair. De forma bem rasa, esse é o princípio da economia compartilhada.

Acontece que a economia compartilhada é muito mais do que uma grana a mais no final do mês. É um novo modelo onde os impactos gerados por ela mudam completamente a forma de uma economia tradicional trabalhar. Então eu pergunto: como ela poderia se integrar a um modelo de administração naturalmente centralizador das empresas e mesmo no setor público?

Falemos de Uber e seus similares. Sempre bato na tecla que carro é um dos produtos mais ineficientes que existe no modelo econômico do século passado. Se você for trabalhar de carro, ele fica, mais ou menos, duas, três horas em atividade (isso se for trânsito pesado como no Rio), para o restante do tempo ficar parado ocupando espaço. E se você não utiliza o carro nem para trabalho, aí mesmo que a eficiência vai para o ralo.

Peguemos empresas com equipe de vendas ou que por algum motivo precise de uma considerável frota de automóveis. Mesmo que os profissionais de vendas utilizem o carro com muito mais eficiência que uma pessoa comum, ainda assim ele não chega a ser utilizado por metade de um dia. Bem longe disso. Não sei se o custo de locação é mais barato, mas ainda que não seja, é comum que essa frota seja alugada. E concordo que tenha de ser assim. Não é business de uma Unilever da vida gerenciamento de carro de vendedor, por exemplo.

Pensemos então como o Uber pode atuar nesse mercado. Não falo de gerenciamento de frotas, pois seria trocar o seis por meia dúzia. Falo de montar uma equipe enxuta onde cada motorista atende X vendedores e o carro funciona de forma mais otimizada. Ou que, ao menos, fique parado pelo menor tempo possível que o carro que o vendedor costuma usar. Certamente este modelo é mais sustentável, mais eficiente e pode ser, até, mais barato (não coloquei a conta no papel, mas fica a sugestão).

Agora pensemos no setor público. Como os governos federal, estadual e municipal podem entregar um serviço de mais qualidade e utilizar melhor o dinheiro do contribuinte ao integrar o modelo de economia compartilhada à gestão pública?

O setor público brasileiro, tradicionalmente, tem de administrar prédios próprios. Prédios muitas vezes subutilizados e emperrados pela máquina burocrática. Prédios muitas vezes localizados em áreas supervalorizadas que poderiam gerar um bom caixa para o governo. Patrimônio muitas vezes cuidado de forma ineficiente, seja na cobrança de um aluguel muito baixo, na manutenção precária por falta de fiscalização adequada ou qualquer um daqueles motivos que só encontramos no sistema público.

Mas e se o setor público do Brasil utilizasse um modelo de Airbnb de espaços corporativos? Ou então adotasse um modelo de coworking? Não seria mais barato e mais eficiente? Não tiraria um peso financeiro das costas do Estado, assim como um peso administrativo? Quão mais eficiência a aplicação de uma visão voltada para as novas economias poderia gerar no setor público? E que impacto isso pode trazer para aqueles que financiam a máquina pública, no caso o cidadão?