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segunda-feira, 31 de outubro de 2016

A sustentabilidade corporativa em suas várias perspectivas

Assim como tudo na vida, as pessoas tendem a buscar um rótulo para a sustentabilidade. Porque é meio ambiente, é responsabilidade social, é viés econômico, é triple bottom line, são projetos, são processos, é planejamento, é sei lá mais o que. A bem da verdade é que sustentabilidade pode ser tudo isso, pode ser qualquer coisa, a partir de qualquer perspectiva. Sério.

Vou exemplificar a partir da minha experiência com a sustentabilidade.

Eu, Julianna, tenho fases dentro da sustentabilidade. Na verdade não deixo nenhuma para trás, vou evoluindo dentro do tema e acumulando conhecimento e visões.

Fase 1: Responsabilidade socioambiental. Quando comecei na área de RSE, por exemplo, de cara vi que ficaria pouco tempo lá, pois sentia profundo incômodo de trabalhar em projetos reativos, voltados para compensação e reputação. Vale ressaltar que é uma atuação importante, é necessária, faz parte de requisitos legais, mas não é para mim. Próxima fase.

Fase 2: Sustentabilidade. Quando comecei a trabalhar sustentabilidade de verdade, minha função era atrelá-la aos processos de negócio/produção da empresa. Não tem como falar de sustentabilidade apenas porque se tem o setor formalizado dentro da empresa. Ou ela está dentro das áreas ou ela é história de ficção. Gostei dessa pegada. Gosto ainda, mas apenas acho que já passou do meu momento. Próxima fase.

Fase 3: Planejamento estratégico sustentável. A-N-I-M-A-L. Considerar a sustentabilidade dentro do planejamento, visualizá-la de forma integrada às áreas, visão sistêmica da empresa, indicadores de performance, metas. Amo. Sempre amarei. Mas ainda assim meu tempo passou, mesmo que seja pouquíssimo praticado pelas empresas e ainda que exista um vasto campo de atuação. Próxima fase.

Fase 4: Economia da sustentabilidade. Olhar a perspectiva da sustentabilidade não só por aspectos financeiros, mas por cenários macroeconômicos, tendências, políticas globais, visões de longuíssimo prazo, lidar com a incerteza das grandes questões mundiais como mudanças climáticas e escassez de recursos, analisar como tudo isso impacta o modelo de negócios das empresas... meu xodozinho. É aqui que quero fincar minhas raízes. No entanto, pelo escopo das empresas, essa visão hoje não é muito discutida.

Não estou falando de Academia, governo, nem organismos mundiais tipo PNUMA ou IPCC. Nesses órgãos a economia da sustentabilidade é algo relativamente bem resolvido. Já tem muita pesquisa, muitos estudos, muitos artigos sobre o custo das mudanças climáticas, da adaptação, da mitigação da perda da biodiversidade etc etc etc.

Meu ponto é: O que isso significa para uma empresa ou um setor por inteiro? O que, por exemplo, significa para a indústria de petróleo e gás ou a indústria automotiva, a resolução alemã de proibir a circulação de carros movidos à gasolina ou diesel a partir de 2030? Como esse nível de sustentabilidade é absurdamente incipiente nas empresas, voltemos uma casa. Daqui a uns 10 anos, quem sabe, a gente avança de novo. Ou menos, eu espero.

Fase 3,5: Inovação para a sustentabilidade. Esta é uma perspectiva que não é nova, mas a verdade é que as empresas nunca deram o devido valor. Para ela existir, no planejamento estratégico de uma organização deve ficar clara a orientação para inovação. E no caso, a visão da inovação para sustentabilidade deve ser muito mais do que um produto como resultado final. Ninguém hoje vai (ou deveria) gastar tempo e dinheiro na pesquisa e no desenvolvimento de um produto de alta emissão de carbono, ou de grande impacto ambiental, por exemplo. Entenderam, empresas de petróleo e gás?

A questão é que praticar efetivamente a inovação para sustentabilidade é ir além de produto sustentável. Significa a integração das novas economias (economia circular, economia compartilhada, economia criativa) ao processo produtivo e/ou ao planejamento estratégico. Significa inovar a partir da mudança que as novas economias vem gerando no mercado, na sociedade e na forma como as pessoas  consomem. Afinal, onde está, por exemplo, a maior inovação para a sustentabilidade: no carro elétrico ou no carro compartilhado?


segunda-feira, 1 de agosto de 2016

Sustentabilidade, economia compartilhada e o setor público

Quando falamos de economia compartilhada, pensamos de cara em empresas como Uber, Airbnb e similares. Pensamos também na possibilidade de qualquer pessoa ganhar um dinheiro extra, descentralizando o processo produtivo, seja alugando um quarto vazio em casa, seja fazendo um bico no volante num sábado à noite que ninguém o chamou para sair. De forma bem rasa, esse é o princípio da economia compartilhada.

Acontece que a economia compartilhada é muito mais do que uma grana a mais no final do mês. É um novo modelo onde os impactos gerados por ela mudam completamente a forma de uma economia tradicional trabalhar. Então eu pergunto: como ela poderia se integrar a um modelo de administração naturalmente centralizador das empresas e mesmo no setor público?

Falemos de Uber e seus similares. Sempre bato na tecla que carro é um dos produtos mais ineficientes que existe no modelo econômico do século passado. Se você for trabalhar de carro, ele fica, mais ou menos, duas, três horas em atividade (isso se for trânsito pesado como no Rio), para o restante do tempo ficar parado ocupando espaço. E se você não utiliza o carro nem para trabalho, aí mesmo que a eficiência vai para o ralo.

Peguemos empresas com equipe de vendas ou que por algum motivo precise de uma considerável frota de automóveis. Mesmo que os profissionais de vendas utilizem o carro com muito mais eficiência que uma pessoa comum, ainda assim ele não chega a ser utilizado por metade de um dia. Bem longe disso. Não sei se o custo de locação é mais barato, mas ainda que não seja, é comum que essa frota seja alugada. E concordo que tenha de ser assim. Não é business de uma Unilever da vida gerenciamento de carro de vendedor, por exemplo.

Pensemos então como o Uber pode atuar nesse mercado. Não falo de gerenciamento de frotas, pois seria trocar o seis por meia dúzia. Falo de montar uma equipe enxuta onde cada motorista atende X vendedores e o carro funciona de forma mais otimizada. Ou que, ao menos, fique parado pelo menor tempo possível que o carro que o vendedor costuma usar. Certamente este modelo é mais sustentável, mais eficiente e pode ser, até, mais barato (não coloquei a conta no papel, mas fica a sugestão).

Agora pensemos no setor público. Como os governos federal, estadual e municipal podem entregar um serviço de mais qualidade e utilizar melhor o dinheiro do contribuinte ao integrar o modelo de economia compartilhada à gestão pública?

O setor público brasileiro, tradicionalmente, tem de administrar prédios próprios. Prédios muitas vezes subutilizados e emperrados pela máquina burocrática. Prédios muitas vezes localizados em áreas supervalorizadas que poderiam gerar um bom caixa para o governo. Patrimônio muitas vezes cuidado de forma ineficiente, seja na cobrança de um aluguel muito baixo, na manutenção precária por falta de fiscalização adequada ou qualquer um daqueles motivos que só encontramos no sistema público.

Mas e se o setor público do Brasil utilizasse um modelo de Airbnb de espaços corporativos? Ou então adotasse um modelo de coworking? Não seria mais barato e mais eficiente? Não tiraria um peso financeiro das costas do Estado, assim como um peso administrativo? Quão mais eficiência a aplicação de uma visão voltada para as novas economias poderia gerar no setor público? E que impacto isso pode trazer para aqueles que financiam a máquina pública, no caso o cidadão?