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segunda-feira, 11 de fevereiro de 2019

A importância do olhar estratégico nos investimentos sociais

Quem é do mundinho da responsabilidade social está mais do que familiarizado com a sigla ISE, que neste caso não é a do Índice de Sustentabilidade Empresarial da B3 (antiga Bovespa), mas a de investimento social empresarial. Ou investimento social privado (ISP), como também é comumente chamado.

Mas Julianna, o que é esse tal de ISE da responsabilidade social? Indo lá no site do ISE (o da B3 mesmo), vi uma definição bacana:

“Os recursos privados que são voluntariamente repassados a uma causa, de forma planejada, monitorada e sistemática para projetos sociais, ambientais e culturais de interesse público são chamados de Investimento Social Privado (ISP) empresarial. O ISP inclui doações filantrópicas feitas pelas companhias, apoio a projetos de organizações sem fins lucrativos e também projetos próprios que tenham como objetivo gerar benefício público”.

Traduzindo, isso seria a grana que a empresa disponibiliza anualmente para financiar projetos seus e/ou de terceiros que têm pegada social, ambiental ou cultural. Bonitinho, não? Pois é, mas acontece que tem um componente crítico nesse financiamento de projetos aí que envolve tomada de decisão. Vamos pensar: o que leva uma empresa escolher financiar determinados projetos?

Geralmente essa definição de onde aportar o dinheiro tem a ver com a causa que a empresa escolhe abraçar. Educação por exemplo. Empreendedorismo. Cultura, esportes. Enfim os temas são diversos e isso é definido pela área da que trata diretamente do ISE da empresa, seja sozinha ou com respaldo de alguma hierarquia superior.

Mas a dúvida que paira no ar é: o que leva a empresa a escolher tal causa? Não sou expert no assunto, já que minha passagem pela área de responsabilidade social foi bem breve, mas posso dar os meus pitacos. Da experiência que tive trabalhando na área, a decisão de onde e no que investir era tomada a partir de demanda de stakeholders.

Particularmente eu acho esse modelo bem temerário. Não sei se vocês já tiveram experiência de um dia trabalhar com relacionamento com stakeholders, mas o negócio é intenso e as demandas são com base no que o público de relacionamento quer, não no que efetivamente é importante para a empresa.

Tirando essa minha experiência particular, por observação, vejo muita empresa que não tem critério algum ao definir a causa que apoia. Muitas trabalham com cultura e esporte. Pergunto: qual o propósito de utilizar a cultura como causa? Sei lá. Deve ser porque é bonito e pega super bem com a sociedade civil dizer que apoia projetos relacionados à cultura. Ponto. Só que convenhamos, isso não passa de filantropia, né?

Não vejo problema algum em fazer filantropia. Fazer o bem, seja ele da forma que for, é válido. A questão é que dinheiro é um treco escasso. Ainda mais se estivermos falando de dinheiro corporativo. E a crise pela qual o Brasil vem passando nos últimos quatro, cinco anos está aí para provar o meu ponto. Ô área que sofreu, essa de responsabilidade social, viu! E quando digo isso, falo também da área que na empresa é chamada de sustentabilidade, mas que na rotina do dia a dia faz puramente RSE.

Na minha opinião, quando o dinheiro é escasso, mais do que a simples filantropia, a tomada de decisão sobre a grana deve ser estratégica. Tipo, a causa apoiada tem de estar diretamente ligada à geração de valor para a empresa. Porque senão é o que vai acontecer sempre, o cinto aperta, o dinheiro some e todo mundo fica chupando dedo. Inclusive o analista da área que, provavelmente, vai perder o emprego.

Julianna, você fica falando, falando, falando, metendo o pau no que vê por aí, mas, como escolher a causa certa para investir o escasso dinheirinho corporativo?

Obviamente essa resposta não tem fórmula certa, mas minha recomendação é pensar na dor social da empresa. Tipo, o que do ponto de vista social pode impactar a estratégia do seu negócio lá na frente se você não adotar a causa hoje? Que tema social é crítico para a sua estratégia nos próximos cinco, dez anos?

Sempre que toco nesse tema de investimento social estratégico, dois exemplos me vêm à mente porque são empresas que entenderam perfeitamente o conceito de dor social. Um exemplo é o do Instituto Souza Cruz, que há mais de década tem como causa o empreendedorismo jovem. As diretrizes do programa podem até mudar de tempos em tempos, o alcance ser alterado, mas há uns quinze anos ou mais a Souza Cruz investe o seu dinheiro social na formação de jovens empreendedores. E por que isso?

Para quem não sabe, o modelo de negócios da Souza Cruz não é plantar fumo. Ela compra a produção de agricultores de pequenos municípios da região sul do Brasil. Uma das principais características desse tipo de agricultura é que ela é fundamentalmente familiar. Lá atrás, bem no início da criação do Instituto, a Souza Cruz identificou que uma de suas principais dores sociais é que por falta de atratividade nas pequenas cidades, esse jovem filho do fumicultor acabava saindo para buscar melhores oportunidades nas cidades maiores e não costumava voltar.

Só que tendo como peça chave do seu negócio a compra do fumo plantado pelo pequeno agricultor, a Souza Cruz entendeu que se ela não investisse em ações para reter esse jovem na cidade dele, lá na frente, num futuro bem futuro, o negócio dela poderia ficar comprometido. No momento que ela entendeu isso, a causa do Instituo passou a ser, justamente, o desenvolvimento de jovens empreendedores. Quando eu estava na Souza, o escopo era a região sul do Brasil. Pelo que vi agora, o programa foi ampliado para onde a Souza Cruz tem unidades de negócio, mas a lógica permanece a mesma.

O outro exemplo é de uma empresa que eu não lembro o nome, mas acho que era tipo recrutamento e seleção de profissionais de petróleo e gás. Se não for, era alguma empresa de óleo e gás. O que importa é a raciocínio utilizado para definir a causa. Pois bem, quem aqui lembra das vacas gordas, quando o Brasil era o cara e o nosso desemprego era mínimo? E quem lembra do apagão de engenheiros que a gente teve nessa época?

Então, essa empresa que eu não lembro o nome identificou que escassez de recursos humanos era uma dor social  dela e do setor de petróleo. Além de perceber que a tendência era piorar, viu que grande parte do problema da falta de engenheiros no mercado tinha a ver com dificuldade das pessoas com o estudo de exatas. A partir daí, qual foi a causa que ela adotou para investimento social ESTRATÉGICO? Reforço de matemática nas escolas de ensino fundamental! Não é lindo?

Pode perecer complicado, mas não tem mistério. Quando a gente passa a pensar no investimento social da empresa como algo que vai além da filantropia, todo mundo ganha. Porque ao resolver uma dor nossa, aquele dinheiro minguado, ralado e pouquinho deixa de ser para fazer algo guti guti em nome da empresa e passa a ganhar contexto estratégico. Sem contar que além de ser bom para a gente, também estamos resolvendo um problema da sociedade. Não raro, de forma mais rápida e efetiva.

terça-feira, 8 de novembro de 2016

Filantropia e sustentabilidade

Acho que o título desse post não retrata exatamente sobre o que vou escrever. Até porque já escrevi algumas vezes aqui sobre a diferença entre filantropia e sustentabilidade. Na verdade esse é um assunto bem claro e bem óbvio. O que eu quero escrever mesmo é sobre o que eu chamaria de, digamos, “filantropia sustentável”.

Filantropia não é um tema novo, pelo contrário, é milenar. Só que nos últimos anos, a tecnologia vem ajudando a leva-la a um novo patamar. Se não me engano, a primeira ferramenta do tipo que apareceu na internet foi a Vakinha online. Ela ainda existe, ela ainda é muito utilizada, mas o que trouxe uma grande ruptura neste modelo foram as plataformas de crowdfunding.

Lá no início o crowdfunding funcionava da mesma forma que uma vaquinha normal. As pessoas ainda estavam experimentando. Quer dizer, ainda tem gente que utiliza dessa maneira e obtém bons resultados. Mas com a maturidade do modelo, as organizações e as pessoas viram o potencial de trabalhar bem uma causa e obter bons resultados a partir desta ferramenta de financiamento/captação.

Acontece que a tecnologia, ao mesmo tempo em que ampliou o potencial de alcance dos projetos filantrópicos, fez com que eles se tornassem muito concorridos. São muitos projetos ou iniciativas disputando muitas vezes o mesmo dinheiro. Um dinheiro que quase sempre é escasso. E o que motivaria uma pessoa, neste caso, a doar seu dinheiro? Basicamente identificação com a causa.

No entanto, para um projeto que precisa de captação para sair do papel ou para se manter, contar apenas com a simpatia das pessoas pela causa é muito pouco. A filantropia pela filantropia, para dar certo, ou a base de engajamento já tem de ser grande antes mesmo do projeto partir para a internet ou o esforço de comunicação e assessoria de imprensa terá de ser gigantesco. Ou então, em casos excepcionais, contar com a sorte de cair nas graças de alguém conhecido e viralizar. Não acho que esse seja o caminho.

É aí que entra a “sustentabilidade” de um projeto filantrópico que vai buscar financiamento na internet. Da mesma forma que tem muitos projetos ruins tentando conquistar a nossa atenção, tem muita coisa boa que aparece nos sites de crowdfunding e muitas vezes peca no modelo de criação da campanha. Para começar, as pessoas que buscam a plataforma para captar precisam entender a mecânica de funcionamento. Se não tiver recompensa é vaquinha, não crowdfunding. 

Se o projeto quer chamar a atenção de alguém que não apoia aquela causa, é fundamental investir na construção de uma boa história, é fundamental investir em uma boa construção visual e é fundamental pensar em boas recompensas. Sim, recompensas. É um jogo de ganha-ganha. Se não é a minha causa, aquilo não é uma doação e eu não vou dar meu dinheiro para receber um chaveirinho em troca.

Isso pode parecer um tanto quanto frio em se tratando de filantropia e as dicas parecem ser bem básicas. E são. Mas é o mesmo dilema que o marketing passou tempos atrás, achando que o apelo ambiental/social por si só era suficiente para alavancar a venda de produtos tidos como sustentáveis. Acontece que já passou da hora de profissionalizar os meios de captação de projetos filantrópicos na internet e de achar que basta coração bom das pessoas para um projeto se viabilizar.