Quando escrevi sobre a tragédia da BP, tive um olhar bem diferente da maioria dos blogs que trataram do assunto. Menos focada no que aconteceu e com olhar mais voltado para a estratégia da empresa, fiz uma análise sobre
a comunicação, o marketing e o reporte de sustentabilidade da empresa que, anos atrás teve seu relatório considerado o melhor do mundo e modelo a ser seguido. Acho que gostaram tanto da abordagem, que inclusive, quase dois meses depois,
o blog Razão Social, do Jornal O Globo, teve uma pauta praticamente idêntica.
Mas enfim, o assunto agora é outro. Assim como desde o início do ano venho eventualmente escrevendo sobre cases de sustentabilidade corporativa, a partir de agora também passarei a escrever uma análise sobre o relatório de sustentabilidade das empresas. E a BP é, justamente, a “cobaia” dessa nova série que está começando no blog. Meu objetivo com isso é, principalmente, desmistificar armadilhas da comunicação que fazem com que, através de relatórios, as empresas pareçam as organizações mais perfeitas do planeta.

Pois bem, não vou mentir. Os responsáveis pelo relatório de sustentabilidade da BP são bons. Do início ao fim fazem a gente pensar que a BP é uma empresa progressista, que olha para o futuro e que esse futuro se dará com energia de baixo carbono. Mas como um olhar mais criterioso não acredita em conto de fadas, alguns pontos no relatório são bem nebulosos.
Exemplos: em dois anos a BP cortou quase 18 mil postos de trabalho, não explicou o corte no relatório e, ao mesmo tempo, ampliou (e muito) seus negócios. Terceirização? Precarização do trabalho? Nesse meio tempo, a contribuição para as comunidades caíram consideravelmente, de U$ 135,8 milhões em 2007 para U$106,8 milhões em 2009. Será que está ficando pobre? Afinal, o desastre de abril aconteceu por conta de uma economia de “míseros” U$ 10 milhões!
Uma informação conflitante presente no relatório de uma empresa que se diz em busca da energia de baixo carbono é o investimento em oil sand. Algo como exploração em areias petrolíferas. Esse tipo de extração chega a emitir até três vezes mais carbono que a extração de petróleo comum e demanda muita água.
Um grande problema do relatório da BP é que ele não aponta deficiências. Ok, 99% das empresas que fazem reporte também não comunicam isso. Acontece que ao falar de seus problemas, a BP cria uma falsa impressão e ilude as pessoas a acreditarem que é uma empresa transparente. Acontece que a forma como ela trata desses problemas é sempre minimizada e, transformada em algo positivo.
Apesar de problemas de comunicação tendenciosa comum aos relatórios da maioria das companhias, apenas uma simples informação que, obviamente, não consta no relatório da BP, poria por terra toda essa imagem progressista. Por mais que queira fazer com que acreditemos que ela seja Beyond Petroleum, por mais que seu relatório de sustentabilidade seja quase todo baseado nesse aspecto, 93% do seu investimento é direcionado à exploração de petróleo e gás. Duas das fontes energéticas mais sujas que existe. E aí, greenwashing?